
Na África, por volta do século
VI, que um pastor de cabras percebeu que seus animais excitavam-se ao consumir
umas frutas vermelhas que nasciam de flores brancas. Teria então o pastor
provado da fruta e assim espalhado o hábito pela região. Esta é a chamada “Lenda
de Kaldi”.
Inicialmente seu consumo era
através de fermentação, tornando a bebida alcóolica; também eram utilizadas suas
folhas, numa espécie de infusão semelhante ao chá. Apenas há cerca de 1.000 anos
– após o fruto ter atravessado o Mar Vermelho, pela Península Arábica – que se obteve o caldo
preto, como hoje é conhecido (resultado de sua torrefação e moagem), e assim ganhou o Oriente Médio,
sendo aos poucos incorporado até no hábito noturno de monges que, em suas vigílias e
rezas, bebiam o café como forma de substituir o consumo de bebida alcóolica
(condenada pelo Alcorão). Tão importante se tornou o café na cultura árabe, que
mulheres podiam pedir o divórcio, caso o cônjuge não provesse a casa com determinada quantia do produto.

Ávidos de lucro, holandeses plantavam
em ilhas no Oceano Índico.
Absoluto, o “Rei Sol” Luís XIV
ordenava que cultivassem espécies em suas colônias na América Central.
Malandros, brasileiros trouxeram escondido (a mando do governo colonial) mudas da Guiana Francesa e iniciaram seu cultivo
no Grão-Pará.
Prejudicados pelo comércio
competitivo do açúcar e com as minas gerais esgotadas, mudas da planta foram trazidas para
próximo da capital da colônia e a região fluminense deu o impulso que
precisava à produção em larga escala, aproveitando o clima, o solo e a
mão-de-obra escrava abundante. Ao chegar ao Brasil, em 1808, e decretar a Abertura
dos Portos Às Nações Amigas, Dom João VI colocou o café – e o próprio Brasil – na vitrine do
mundo.
O Vale do Paraíba enriqueceu com
a produção cafeeira. Escravos, que na década de 1850 custavam 500 mil réis, na
década seguinte valiam 100% mais. Aumentavam om lucros do jovem império; a
região florescia junto com a flor branca que dava frutos vermelhos. O café era responsável
por 56,8% de toda exportação brasileira. Mas de tanto explorar o solo carioca, este se esgotou, fazendo com que se buscassem novas áreas para o plantio: o
Oeste Paulista.
A região logo enriqueceu. A
floresta atlântica foi devastada naquela região para dar lugar às fazendas que
nasciam. Vieram as ferrovias para ligar o polo produtor aos portos no litoral. A
mão-de-obra escrava, além de encarecer o produto, não era tecnicamente
preparada, atravancava o capitalismo e, por isso, imigrantes foram trazidos para dinamizar ainda mais o
trabalho. Italianos deixavam suas terras buscando vida nova na América cafeeira;
japoneses atravessavam o mundo em busca de emprego no Novo Mundo. Daqui do sul
saía o charque para alimentar os trabalhadores dos cafezais. São Paulo se
industrializava graças à semente torrada. O mundo consumia cada vez mais a bebida
amarga.

O café do mundo, agora era brasileiro;
o Brasil, de muitas cores, agora era moreno como o café.
Por isso quando seguramos uma
xícara dessa bebida quente, densa e amarga, temos nas mãos todos aqueles povos
e homens que atravessaram continentes cultivando. Quando sentimos seu aroma,
temos nas narinas a essência do tempo; e quando bebemos o café podemos, de
forma sublime, sentir o gosto da história.
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Aceita, então, tomar um
cafezinho?
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