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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

CACETINHO, MORTADELA E A ACEITAÇÃO DA CORRUPÇÃO NA POLÍTICA BRASILEIRA

Ano passado, em meio aos acalorados debates políticos que antecederam as eleições presidenciais, um velho senhor que escutava uma discussão entre alguns jovens e eu, interrompeu nossa conversa e deu sua sábia - porém resignada - opinião sobre a corrupção no Brasil:
"Todo governo que está há muito tempo no poder, começa a roubar bastante. Está na hora de mudar de governo para deixar que os novos comecem a roubar aos poucos. E quando estes estiverem roubando bastante, troca-se de novo."
Teve quem risse daquele intrometido comentário.
Não me arrisquei a rebater e a conversa terminou por ali.

Passada a eleição e alguns meses, tomo consciência da sábia resignação daquele homem, ao perceber que antigamente as notícias de corrupção davam nota de "milhares de reais desviados".
Nos anos seguintes, as cifras chegavam a marca de "milhões de reais" roubados dos cofres públicos.
Mais recente, a crise do atual governo nos apresenta rombos de "bilhões de reais".
Porém, os últimos relatórios agora apontam que o rombo dos desvios e má administração dinheiro público da sociedade brasileira é de "MEIO TRILHÃO DE REAIS".


Enquanto isso, na contramão da política nacional e do crescimento da rapina do dinheiro brasileiro, ontem à tarde reencontrei aquele velho senhor na padaria; ele queria comprar pão, queijo e presunto, mas contando as moedas - e vendo seu dinheiro desvalorizado minguar no bolso - percebeu que só poderia comprar quatro cacetinhos e 200 gramas de mortadela. Sempre sorrindo, ao me ver, ainda disse:

"Pois é meu filho, banquetes só fazem lá em Brasília. Por enquanto, acho que agora vou precisar esperar mais quatro anos (isso se eu viver até lá) pra ver se ainda conseguirei tomar um bom café."

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O CARNAVAL DE RUA DE URUGUAIANA É DIFERENTE

Já começa diferente pelo simples fato de ser "fora de época". As escolas de samba desfilam na avenida em pleno outono; uma alegria quase que carnavalesca para as clínicas pneumologistas que lotam depois da folia.


É diferente porque todos se orgulham de dizer que somos o terceiro maior carnaval do Brasil e o maior em extensão: desfilar pela avenida Presidente Vargas é quase que fazer o percurso da São Silvestre.
O carnaval de rua de Uruguaiana é diferente porque dizem valorizar o que a cidade tem de melhor, mas trazem porto-alegrenses e cariocas para comandar a festa.

As diretorias de algumas escolas de samba são diferentes, pois não se preocupam tanto em elevar a disputa sadia pelo título; disputam vaidade.

O carnaval de rua de Uruguaiana é diferente porque quanto mais ele cresce, o que mais vemos crescer são brigas, "xismes" e polêmicas, e o que mais vemos diminuir é justamente carnaval, samba e folia.
Diferente também, são alguns carros alegóricos, que no papel custam fortunas, mas na avenida seus superfaturados tecidos baratos (tnt e até papel crepom) se despedaçam em frente ao público e de jurados ganham notas máximas. Mas sobre superfaturamentos, obras inacabadas e/ou despedaçadas e aplausos aos que comandam o espetáculo, Uruguaiana já está acostumada (talvez nem seja tão diferente assim no dia-a-dia da vida do uruguaianense).

Mesmo assim, o Carnaval de Uruguaiana, definitivamente é diferente; pois a cada ano surgem novas escolas de samba para poder fatiar o dinheiro destinado ao evento, como foi o caso da Império Serrano e agora da mais nova:

"Morro do Galo".

O Carnaval de Uruguaiana é tão diferente que, na ironia das minhas críticas, vou fundar a escola "Morro e não vejo de tudo!".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

TENHO PENA DE PESSOAS QUE POSTAM FOTOS COM A LEGENDA "DE COPO SEMPRE CHEIO, CORAÇÃO VAZIO"

Ainda não havia parado para prestar atenção neste novo "hit" musical, mas percebi que muitas pessoas estavam utilizando o refrão para legendar publicações e fotos em redes sociais. Atraído pela curiosidade, resolvi entender a letra desta música, e me surpreendi com o significado que ela parece representar na vida das pessoas que a utilizam como lema.

Que os corações estão vazios, isso há muito tempo eu sei. Amor de verdade é artigo raro em nossa sociedade. Nem por isso é motivo para crer que nunca mais amará novamente. Somente pessoas fracas desistem logo no primeiro fracasso.
Porém, preferir um copo cheio de bebida como justificativa para suas frustrações amorosas me faz sentir pena de quem prefere o refúgio da bebida à coragem de tentar amar novamente. Afinal, ninguém vai encontrar a felicidade num copo de bebida.


Se for para encher o copo, que seja de esperança.
Mas por favor, nunca deixe seu coração esvaziar.

domingo, 12 de outubro de 2014

O TEMPO DE SER CRIANÇA (para Dartagnan Duarte II)

Meu filho,
Caminhe por esta tua infância. Deixe que teus primeiros passos sejam lentos neste teu alvorecer de vida. Não tenha pressa de crescer. Viva este teu mundo dourado; ainda não pense tanto no amanhã; viva este presente em forma de presente. Pois quando piscares os olhos novamente, apenas terás a lembrança de uma época bonita, e a saudade de um passado de candura.
Aproveite a pureza destes momentos; descubra, na inocência de tua curiosidade infantil, o mundo azul que só teus olhos de criança conseguem enxergar. Só assim eu também conseguirei, nesta máquina do tempo que tu me proporcionas, voltar à minha aquarelada infância, guardada numa caixa de lembranças, e que só abro quando brinco contigo.
Brinque; se divirta por entre os anos.
Perca o fôlego rindo, grite de alegria.
Beije sua mãe.
Abrace seu pai.
Aproveite ao máximo seus avós. 
e sentir fome, coma; se estiver cansado, descanse; se tiver sono, sonhe; sonhe o mundo que desejar e ele assim será, conforme tua imaginação permitir.
Voe alto, derrote os inimigos, salve o mundo e defenda os bons neste teu faz-de-contas de criança. Viva teus sonhos de super-herói.

E quando este tempo acabar, quando você se tornar adulto, volte à infância sempre que puder (só que agora com teu filho) e lembre que mesmo que o tempo passe depressa, somos nós que decidimos se deixamos ou não de ser criança.

https://www.facebook.com/video.php?v=638185752914615

domingo, 21 de setembro de 2014

RIO GRANDE (mais que uma data)

Esta terra, de longa e brava história, não resume apenas a uma Revolução.
Nosso passado repleto de glórias e bravura deixou escrito nas páginas da história os feitos deste povo que sempre lutou pela defesa de sua mátria, morreu peleando por um ideal, e renasceu, toda vez que precisou proteger esta terra.

Assim Sepé lutou em 1750, defendendo a terra de seus ancestrais, contra os exércitos luso-espanhóis, e morreu peleando, de lança firme na mão.

Assim foi em 1835, quando um império nos enfrentou; e o sangue farrapo conteve seus avanços por dez anos.
Assim novamente foi em 1865, quando expulsamos o inimigo estrangeiro que nosso solo tentou macular. De perto o Imperador viu gaúchos renderem paraguaios, que nunca mais retornaram.
1893, 1923 e 1925, lutamos novamente, desta vez entre irmãos; e mesmo que separados ideologicamente, dos dois lados fervia o mesmo sangue revolucionário. Pedras Altas nos uniu novamente.
E, em 1930, irmanados, atravessamos o país para derrubar uma República e iniciar mais um capítulo na cronologia desta nação. Um gaúcho deixou seu nome na linha do tempo da história do Brasil.
Por isso tenho orgulho e, principalmente, gratidão por ser gaúcho.
Somos mais que uma data e uma festividade; somos o sangue e a honra daqueles que lutaram por nós e morreram em combate para permitir que hoje possamos dizer: "eu sou gaúcho!"
"Entre nós, reviva Atenas,
para assombro dos tiranos,
sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos."


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PADRÃO DE VIDA DE UM METROPOLITANO E UM PROVINCIANO

   A discussão entre meu amigo uruguaianense que vive em outra cidade e eu começou por causa de uma foto de um hambúrguer da marca Burguer King.
  Ele mandou uma foto da comida servida pela multinacional - em embalagem requintada, acompanhada de batata frita e coca-cola – e eu retruquei brincando: “Prefiro um xis do João Pedro!”. (em tempo: qualquer outra boa lancheria de Uruguaiana também pode ser usada como referência)
   Estava, naquele momento, declarada uma guerra ideológica entre o metropolitano e o provinciano.
   Mais uma vez começamos a discutir o que Uruguaiana tem (ou não tem) e o que só se se encontra nas grandes capitais.
   “Aqui nós temos muito mais opções. Podemos fazer de tudo e ir a qualquer lugar. Não ficamos apenas dando volta na praça no final de semana e tomando mate. Se eu quiser, pego minha família e levo ao Shopping Center; lá comemos um Big Mac ou um Burguer King; depois, descemos de escada rolante (sendo que nem isso tem em Uruguaiana) e assistimos um cinema 3D. Nossa internet é 4G, postamos tudo em tempo real. Só aqui nós temos qualidade de vida que queremos.” Expôs o meu amigo metropolitano.
   Ainda tentei argumentar, explicando fatores como cultura local, comportamentos urbanos e aspectos sociais, que somente encontramos em nossas cidades de interior. Tudo em vão! Ele decididamente afirma (e está convencido) que sua metrópole é exemplo de qualidade e padrão de vida.
   Foi a primeira vez que eu desisti de uma discussão.
   Meu amigo continuava escrevendo pra mim através de seu I-Phone de última geração, utilizando sua potente 4G, destacando todas as tecnologias, recursos e possibilidades, e eu comecei a me questionar e refletir sobre o que, realmente, é “padrão de vida”.
   Será Padrão de Vida, para este amigo metropolitano, reunir toda família para passear no Shopping Center? Aquele grande ambiente fechado, onde pessoas que não se conhecem e, talvez nem se cruzarão novamente, transitam olhando vitrines, entrando em lojas, comprando tudo que o limite do cartão permitir (mesmo que nem cheguem a usar o que adquiriram), vivendo o novo “the american way of life” consumista, que destruiu a economia americana no final dos anos 20.
   Enquanto isso, aqui na província ainda praticamos aquele ofício retrógrado de, no fim de semana, visitar os parentes que gostamos. Obsoletos, mantemos o velho hábito de aproveitar um sábado de sol, sentando nas praças, cumprimentando os amigos que passam.
   Pra quem vive na metrópole existe o “poder de escolha” – sendo, ironicamente, todas elas unicamente americanas – entre comer um Big Mac, um Burguer King ou Subway ou uma Pizza Hutt, admirando letreiros onde a felicidade e o tamanho dos lanches parecem enormes, mas a realidade servida na bandeja é bem menor.
   Aqui no interior apenas nos limitamos ao churrasco de fim de semana em família, onde convidamos os amigos que trazem cerveja, e sempre alguma esposa faz a famosa salada de maionese.
   Felizes, as famílias metropolitanas assistem os lançamentos do cinema no cinema 3D, quase que interagindo com a tela fria do cinema e, ao final do filme, descendo a escada rolante, saem comentando sobre a ficção que em vida jamais terão.
   Resignados, à nós provincianos – que nem escada rolante temos – resta passear pela cidade e curtir o final de tarde de domingo, assistir o pôr-do-sol na beira do rio e fazer o mate passar de mão em mão durante uma conversa.
   No I-Phone do metropolitano, com sua internet 4G, ele guardará todas as fotos tiradas neste final de semana de alto padrão de vida que só a capital oferece.
    Na retina deste provinciano ficarão os momentos que eu vivi de fato, aqui no interior.
.
Depois de toda esta longa reflexão, quando me dei de conta, vi que havia deixado meu amigo sozinho no chat. Chateado por ter ficado escrevendo sozinho, me perguntou se eu ainda estava aqui, se não queria mais conversar ou se eu havia percebido o quanto é melhor morar na capital.
Não quis seguir debatendo; apenas disse que estava fazendo um arroz de carreteiro com charque.
Foi quando ele disse: “Bhá! Isso não temos aqui!”
...
   Pois é meu amigo! É que infelizmente, ao longo destes mais de 600 quilômetros que separam a tua metrópole do nosso interior, muita coisa se perdeu pelo caminho: principalmente CULTURA e VALOR.
   Este “padrão de vida enlatado”, que tu comes dividindo a mesa com estranhos, por melhor e maior que seja a marca, não tem gosto.
   Por isso ainda prefiro o xis do JP, onde encontro e cumprimento algum amigo. Ou ainda, o meu carreteiro de charque, que levarei uma prova pra minha vizinha, que por sinal é a tua mãe, pois ela me emprestou uma cebola.
   Coisas que só acontecem aqui, na província, onde o padrão de vida até pode ser baixo, mas permanece a nossa cultura, e os valores ainda são elevados.

domingo, 17 de agosto de 2014

A PAZ EM TEMPOS DE GUERRA (O NATAL DE 1914)


  Considerado como o evento mais significativo do século XX, “A Guerra das Guerras”, que durou de 1914 a 1918, deixou marcas tão profundas que todos os grandes fatos posteriores são consequência direta de seu efeito devastador.

A Revolução Russa, o totalitarismo que surgiu poucos anos após o armistício assinado em Versalhes, a Crise Mundial de 1929 e a Grande Depressão, a própria Segunda Grande Guerra Mundial e até a Guerra Fria são filhos da Primeira Grande Guerra Mundial, que matou vinte milhões de pessoas.
Enquanto aviões pela primeira vez eram usados em combates aéreos, submarinos e navios se torpedeavam em alto mar e tanques liquidavam infantarias inteiras em terra (configurando uma “guerra total”), nas trincheiras fétidas e enlameadas as doenças e os horrores marcariam pra sempre a vida daqueles que sobreviveram a este flagelo. Em carta, um anônimo soldado alemão descrevera o que viveu:
“Estamos tão exaustos que dormimos, mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não seremos substituídos. Os aviões lançam projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas – pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno.

J.R.R. Tolkien, na época apenas um jovem oficial britânico, previu durante a guerra: “Minha principal impressão é que alguma coisa se quebrou pra sempre”.

* * *
Em meio ao caos do conflito, no inverno europeu de 1914, na véspera do Natal, das trincheiras francesas e inglesas era possível ver nas trincheiras alemãs pequenas árvores enfeitadas com velas. Cânticos começaram a ser entoados dos dois lados do front, e por algumas horas a “Terra de Ninguém” foi palco de uma cerimônia natalícia. Confraternizados, soldados dos dois exércitos trocavam cigarro, apertavam as mãos e bebiam whisky.
Cem mil homens propuseram uma trégua não oficial para comemorar o nascimento de Cristo.
Há cem anos, quem viveu aquela noite de Natal nas trincheiras percebeu, naquele momento, que mesmo em meio a guerra - com todo seu terror - a paz sempre busca uma forma de prevalecer.
* * *