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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

OBRIGADO BRASILEIROS!

Obrigado brasileiros! Por nascermos submissos desde a origem e nunca termos questionado ou imposto nossa vontade desde o nascimento do Brasil. Chegaram aqui os portugueses e sem consultar decretaram que seriamos colônia de um povo europeu e desconhecido; fomos índios, negros e colonos passivos a aceitar as imposições metropolitanas; levaram quase toda nossa riqueza. Não nos questionou quando bradou solene D. Pedro, naquela manhã ás margens do Ipiranga, e – sem perguntar à nós – decidiu fazer daqui um país; inertes assistimos a alvorada de uma nação sem participarmos. Anos depois militares republicanos sequer cogitaram a hipótese de indagar o povo quando derrubaram a monarquia; surgia uma república, e nós, apáticos, apenas assistimos a mudança da forma de governo. Mas de que adiantou mudar a forma de governo? Se nunca nenhum deles governou pra nós?


Obrigado brasileiros! Por termos criado o carnaval e fazermos dele o maior espetáculo da terra. Por termos acolhido aqui aquele esporte inglês e nos tornarmos o país do futebol. Assim deixamos de nos importar com política e com a própria sociedade. O resultado disso é a decadência da saúde pública, a falta de empregos e de oportunidades, a precariedade da educação, o sem-teto humilhando-se a esmolar pela rua, a falta do que comer em casa. Mas faça chuva ou faça sol, fevereiro tem carnaval e também queremos ver nosso time vencer algum campeonato. Vamos desfilar e nossa escola de samba precisa sair campeã; felizes pois em 2014 a Copa do Mundo será aqui e será nossa! Mas como farei para desfilar, se estou doente à espera de um leito no hospital? Como assistirei meu time ganhar ou torcer pra seleção, se não tenho emprego e estou sem dinheiro?

Obrigado Brasileiros! Pois mesmo sendo uma nação jovem, podermos hoje viver no gozo da democracia plena e termos Constituição e Justiça que nos ampare e protege. Por escolhermos nossos governantes de forma direta e termos assegurados nossos direitos na forma de leis que nos cobram e punem caso não as cumpramos. Por sermos dominados, quando devíamos dominar; pois o poder emana de nós, e mesmo assim não temos poder – nem sequer coragem – para tirarmos “do poder” aqueles poderosos homens que criam as leis que nos castra. Por termos uma constituição tão nossa que é chamada de “Cidadã”, mas como cidadão que não somos não a usamos por descaso, e tampouco a justiça a aplica, por ser omissa e negligente; por isso vemos o imperar entre nós o assassínio, a corrupção, o roubo e a tragédia premeditada. Só depois dos fatos ocorridos, de sentirmos na pele, bradamos aos governantes e recorremos à Justiça. Mas quem são nossos governantes, se amnésicos já nem lembramos em quem votamos na última vez? E à que Justiça poderemos recorrer, se desmazela ela nunca se fez pesar?

Muito obrigado Brasileiros! Que talvez nem tenham chegado ao final desta leitura, pois precisamos cuidar da vida do vizinho, postar alguma imagem no facebook, assistir a novela ou saber quem foi o eliminado do Big Brother. Acomodados na poltrona, vemos o Brasil ruir na nossa volta enquanto tomamos uma cerveja e displicentes nada fazemos, pois somos brasileiros e acreditamos que sempre é possível “dar um jeitinho”. Só que este câncer do comodismo e da incúria, que temos impregnado em nossa sociedade, não há remendo que cure.

Muitíssimo obrigado brasileiros! Sequer senti vontade de terminar esta crônica; pois ao escrevê-la senti por um momento vergonha de ser brasileiro, preguiçoso e inerte. Tentei fazer minha parte. Desiludido, percebo que não mudei nada. Porém acredito, mesmo que carregado de incredulidade e ceticismo, que um dia verei o povo brasileiro se levantar e agir, e assim poder dizer, com orgulho: “Obrigado por ser brasileiro!”
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“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” (Rui Barbosa)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A FELICIDADE EM 2012 COMPARTILHADA EM 2013

Os antigos egípcios tinham uma crença sobre a morte.

Quando a alma chegava ao paraíso, os deuses perguntavam duas coisas. As respostas determinariam se alma entraria no paraíso ou não.
Primeira pergunta: "Encontrou a felicidade na sua vida?"
Segunda pergunta: "Você, na sua vida, proporcionou felicidade aos outros?"
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Todos nós queremos ser felizes. Em 2012 busquei a felicidade e por vezes cheguei a pensar em desistir de procurá-la. Procurei longe, as vezes em lugares errados, sem perceber que a felicidade está sempre perto, nos rodeando sob a forma de coisas simples como um abraço, um “bom dia!”, um aperto de mão e um sorriso. Amigos e familiares me permitiram ser feliz neste ano que se encerra.
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Porém a felicidade não é plena se você tê-la só pra si. Em uma época pautada por redes sociais que compartilham fotos e mensagens bonitas, fomos pouco-a-pouco deixando de sermos solidários com o próximo, pois hoje em dia é mais fácil clicar uma mensagem de apoio para alguém do que realmente ajudar aquele que está perto.
A felicidade é que deve ser compartilhada.
E assim, este ano, eu procurei levar a alegria a todas as pessoas que eu pude:
Cuidei da minha família; estive mais presente com meus entes; me reaproximei de parentes que, com o tempo se afastaram. Levei de volta para eles a mesma felicidade que eles me proporcionam.
Fiz novas amizades e cultivei as velhas. Por serem eles o meu porto seguro, tratei meus amigos com carinho especial e não poupei esforços para ajuda-los; pois sei que se eu depender de qualquer um deles, terei o amparo necessário. 
Tornei a minha sala de aula o meu mundinho feliz, e busquei trazer meus alunos para a magia de aprender se divertindo, levando alegria aos seus estudos. Acredito tê-los ajudado a dar seus primeiros passos rumo à vida profissional que, futuramente, lhes trará felicidade.
Porém este ano, principalmente, procurei “fazer o bem, sem olhar à quem”.
Certa noite acordei durante a madrugada e me senti mal. Me senti envergonhado por estar dormindo confortavelmente enquanto muitos sofrem sem ter abrigo e o que comer. Naquela mesma madrugada saí de carro e percorri alguns dos bretes de nossa cidade e sofri junto daquelas pessoas a dor da pobreza e da miséria.
A partir dali iniciei um pequeno, mas sincero, projeto de ajuda solidária às pessoas que vivem nos bretes de Uruguaiana.
Percebi que neste ano que de nada adianta ser feliz sozinho; a felicidade não existe para ser vivida egoistamente; A FELICIDADE PRECISA SER COMPARTILHADA.
Vocês, meus amigos, em 2012 me trouxeram de volta a felicidade.
Eu, neste ano que termina fui feliz e tratei de leva-la onde fui.
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Muito obrigado!
FELIZ COMPARTILHADO 2013”

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

À ESPERA DO FIM DO MUNDO


Desde que o mundo é mundo, e a humanidade caminha por ele, existem teorias, previsões e profecias para o seu fim. Na Roma Antiga já esperavam seu fim trágico. Depois, com a disseminação do cristianismo – e a “volta de Cristo” –, religiosos erraram repetidas vezes achando que o apocalipse se daria em alguma destas datas abaixo:
- no Século I; na geração posterior a morte de Jesus.
- Em 1260; segundo Joaquim de Fiore, que após o erro ainda transferiu a data para 1290 e 1335. E nada de Jesus aparecer!
- Em 1504; quando o pintor renascentista Sandro Botticelli pregou que Cristo viria logo após a virada de 1500.
- Em 1806; quando uma galinha, na cidade de inglesa de Leeds, começou a botar ovos com supostos dizeres “Christ is coming”.
- Em 1891; Joseph Smith (criador da religião Mórmon) em 1835 disse que Cristo havia conversado com ele e prometido voltar 56 anos para arrebatar o mundo.
Jesus não veio em nenhuma destas datas; e o mundo não acabou, para alegria de muitos e a tristeza de alguns.
Outras teorias então começaram a surgir para dar cabo do planeta; como em 1881, quando astrônomos disseram que a passagem do Cometa Halley pela terra em 1910 mataria todos devido a gases mortais contidos em sua cauda. Naquele ano todos que puderam contemplaram o fenômeno astronômico e ninguém morreu por causa do cometa.
Durante o século XX houve um apocalipse de teorias e profecias cataclísmicas: Charles Manson afirmou que o fim seria em 1969; Pat Robertson previu para 1982; em 1988 o Cometa Halley passou de novo e causou novo alvoroço; a Seita Heaven’s Gate profetizou para 1997; estudiosos acreditaram que Nostradamus estaria certo ao afirmar que “no ano 1999, sétimo mês, do céu virá o grande terror”; matemáticos e especialistas em informática achavam que a virada de 1999 para 2000 causaria uma pane geral em computadores e acarretaria grandes catástrofes elétricas e nucleares; outra vez teorias bíblicas aterrorizaram o mundo devido à contestada citação: “De 1.000 passará, mas a 2.000 não chegará!”. O mundo não acabou, chegamos ao novo milênio; e ele trouxe mais teorias fatais que, a exemplo de todas as outras, também falharam.
Recentemente, um achado arqueológico deu início novamente a um frenesi apocalíptico. Um calendário do antigo povo pré-colombiano maia afirma que o fim acontecerá dia 21 de dezembro de 2012. Na verdade é apenas um erro de interpretação, pois - diferente da nossa teoria linear de tempo - os maias acreditavam que o tempo é cíclico e, portanto, mais um ciclo encerra-se, tendo fim no dia 21 próximo. Mesmo assim para milhões de pessoas o medo de uma hecatombe voltou a tomar conta do imaginário popular.

Mas por que – em todas estas teorias de fim de mundo – acreditamos que fim será trágico?
Catástrofes, desastres, destruição, extermínios, terror e morte são coisas do dia-a-dia da humanidade. O mundo convive com isso desde que o homem começou a dominar onde habitamos.
Praticamos as maiores catástrofes naturais por não respeitarmos a própria natureza.
Causamos os maiores desastres ambientais.
Somos nós mesmos os destruidores do mundo que nos abriga.
Exterminamos plantas, raças de animais e etnias humanas pelo simples prazer da maldade.
Trouxemos o terror à quem também comete o terror.
Fizemos da morte lugar comum no dia-a-dia, enquanto do amor nada aprendemos.
E agora, aterrorizados tememos a própria morte e a morte da humanidade?
A humanidade, com seus milhares de anos e gerações, burramente não aprendeu a amar; preferiu pilhar, destruir e matar. Não será necessário um apocalipse; nós já vinhamos “apocalipticamente” morrendo aos poucos. O fim já aconteceu e nós homens não percebemos. Morremos por dentro. E a única coisa que nos resta é esperar que a raça humana renasça.

Por isso dia 21 de dezembro estarei à espera desta data. Quero acreditar que ao abrir os olhos neste dia verei o fim de todas as mazelas e desgraças que nos levaram ao fim da raça; não haverá mais miséria; não irei mais assistir a destruição das coisas que nos rodeiam; não verei mais o irmão passar fome e frio deitado na calçada; não sentirei mais o ódio e a discriminação entre as pessoas por causa de suas diferenças sociais e étnicas; não verei mais a morte sendo anunciada, mas o amor sendo compartilhado.
Eu assistirei um nascer de um mundo melhor.
Por isso, estou à espera do dia 21.
O dia que nós renasceremos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

POR ACREDITAR NOS MEUS ALUNOS


* AOS QUERIDOS ALUNOS QUE FARÃO VESTIBULAR NO FINAL DE SEMANA *

SEMPRE ME PERGUNTAM POR QUE INSISTO EM SER PROFESSOR, SENDO QUE ESTA MALFADADA PROFISSÃO NÃO TRAZ RECONHECIMENTO E TAMPOUCO GANHOS FINANCEIROS.
AOS QUE QUESTIONAM, RESPONDO DIZENDO QUE NÃO EXISTE PREÇO QUE PAGUE A FELICIDADE QUE É ENTRAR EM SALA DE AULA E VER NOS OLHOS DOS ALUNOS O BRILHO DO CONHECIMENTO QUE VOCÊS ADQUIREM EM CADA AULA QUE TEMOS.
ESTE É O MAIOR PAGAMENTO QUE POSSO RECEBER E O SUCESSO DE VOCÊS É A MINHA RECOMPENSA PELO ESFORÇO MÚTUO QUE TEMOS.
SINTO QUE SOU O TÉCNICO DE VOCÊS NESTA JORNADA ATÉ SUCESSO; E MESMO SABENDO QUE NÓS PROFESSORES VIVEMOS DE UMA DESPEDIDA PRECOCE (COM DATA LIMITE PARA EXPIRAR) SEI QUE A PARTIR DE AGORA, VOCÊS, MEUS BRAVOS ALUNOS PARTIRÃO EM BUSCA DA VITÓRIA. MAS QUEM SOU EU PARA COBRAR VITÓRIAS? JÁ PERDI TANTAS COISAS NA VIDA: AMORES, FAMÍLIA, BONS EMPREGOS, AMIGOS, ESPERANÇA E ATÉ - POR ALGUNS MOMENTOS - A ALMA.
MAS O QUE ME FEZ CHEGAR ATÉ AQUI FOI A MINHA PERSEVERANÇA. CONQUISTEI TUDO QUE PUDE DE VOLTA, POIS EU JAMAIS DESISTI.
PORTANTO, LEMBREM QUE, AO SE ENCAMINHAREM PARA O DESTINO QUE LHES ESPERA, VOCÊS, MEUS QUERIDOS, FORMAM UM COMPROMISSO MORAL COMIGO, COM SEUS PAIS, SUA SOCIEDADE E CONSIGO PRÓPRIOS... O COMPROMISSO DE "JAMAIS DESISTIR".
VÃO, MEUS BRAVOS GUERREIROS, LUTEM PELO SUCESSO E JAMAIS DESISTAM.
VOLTEM, MEUS HERÓIS; E A GLÓRIA ESTARÁ COM VOCÊS!
"Veni, Vidi, Vici"
BOA PROVA!
Amém!
(assistam o vídeo)
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domingo, 18 de novembro de 2012

CUIDADO COM O PROGRAMA "PAIXÃO.EXE"


Trocando de janelas no seu mundinho virtual, transitando entre uma rede social e outra, você conheceu aquela pessoa que parece ser incrível.

Sem conhecê-lo(a), você lhe adiciona à sua lista de amigos, achando que será um programa maravilhoso e o instala em sua vida.
Com o passar do tempo, entre “curtidas”, “compartilhadas”, “comentários” e “cutucadas” surgem as primeiras conversas e aquela pessoa - que parecia ser apenas um aplicativo - já está ocupando muito espaço no seu HD emocional.
O programa instalado é fantástico. Seu sorriso é intenso, seu olhar é cativante, sua conversa é envolvente; mas de repente seu HD já começa a dar sinais de lentidão.
Alguns outros programas (amigos.ppt, trabalho.pdf e família.doc) deixam de funcionar corretamente e nem damos atenção para os avisos de sistema perguntando se queremos enviar relatório para tentar melhorar o desempenho do computador. Trocam-se números de celular, e se forem da mesma operadora, com torpedos ilimitados, o processador de nosso cérebro então já não faz mais cópias de segurança, não realiza mais operações lógicas simples e reinicia involuntariamente todo nosso sistema operacional sem pedir autorização.
Depois de alguns encontros o coller já não dá mais conta do superaquecimento sentimental de seu CPU.
Você não fez backup desde a sua última formatação amorosa. Seus arquivos emocionais, que já estavam danificados, nem na lixeira estão mais. Aflito, tenta fazer uma varredura usando um antivírus potente, mas aquele programinha adoravelmente fatal já pulou seu firewall da razão. Ironicamente, o sistema de segurança ainda lhe diz: “As definições de vírus foram atualizadas!”

Desesperado, chama algum “amigo” técnico em informática e conta tudo o que está acontecendo. Experiente, ele lhe aconselha a formatar tudo e limpar seu PC, instalando agora programas potentes como, festas.avi e bebedeiras.exe. Ao ligar de novo você percebe que o programinha ainda está ali, instalado, com arquivos ocultos.
Aquilo que parecia ser apenas uma distração inofensiva, um passatempo, um aplicativo a mais instalado (com um ícone bonito em seu desktop do dia-a-dia), tornou-se um Cavalo de Tróia poderoso, destruidor, avassalador e sem recuperação. Impregnado na placa-mãe do coração, corrompendo a memória ram emocional e o hardware racional.

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Não há mais o que fazer; você está infectado por um vírus letal e a culpa é toda sua. Pois quando você quis instalar este software, clicou em “eu concordo” sem ter lido os termos de uso do programa.
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domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre o Pedro

Muitas vezes criei estórias, inventei personagens, usei pseudônimos e deixei mensagens subliminares em muitos dos meus textos, explicando o que se passava comigo, sem que soubessem que os conselhos e as mensagens eram para mim mesmo. Esta foi a forma de “auto-ajuda” que encontrei para me medicar e, ainda, dosar a vida daqueles que leem O Provinciano. Mesmo assim muitas perguntas são feitas sobre o que realmente se passa comigo. Parece que me tornei popular; e esta pseudo-popularidade trouxe à tona o interesse das pessoas sobre a vida do Pedro. E eu vou lhes contar:
Existem dois Pedros. Um, o profissional bem-humorado, extrovertido e sempre disposto a ajudar qualquer um que lhe pedir auxílio. Pedro que passa as noites neste seu escritório montando aulas, fazendo slides, lendo livros e – literalmente – vivendo história, para fazer de uma aula seu playground; pois se existe um lugar onde realmente ele é feliz é dentro de uma sala de aula. O outro Pedro é simples, extremamente simples; sem graça como televisão preto & branco numa tarde de chuva; tão fechado que evita novas amizades e novos amores para não decepcionar as pessoas que esperam deste Pedro o que o Pedro profissional é.
Pedro machista; mas apenas da boca pra fora. Pois nenhum homem pode ser machista sendo que todos somos frutos de uma mulher; e o que seria da humanidade sem o colo feminino para nos carregar, uma mão para nos conduzir e um carinho para nos dar forças para viver? Usando esta “psicologia inversa” o machista ironiza as mulheres apenas para provar o verdadeiro valor que elas tem, mesmo quando elas parecem ser inferiorizadas.
Este Pedro que reclama da idade mesmo ainda muito jovem é porque ele não aceita o envelhecimento; quer seguir o mesmo garoto de 15 anos atrás. Quer pescar, reunir os amigos sempre que possível para uma carne assada. Quer estar em festas, dançar e se divertir. Quer jogar futebol uma tarde inteira com os amigos; pois naquela época não tinha problemas pra resolver nem o relógio pra cuidar devido a algum compromisso. Mas hoje percebe que isso é impossível; as pernas, o coração e a razão não acompanham mais o impulso jovem que felizmente insiste em ficar.
Solteiro? Insensível? Frio? Inconstante? Nos últimos onze anos houve um cara que por vezes esteve casado, por vezes noivo, outras vezes namorando. Em algumas destas vezes as pessoas que estiveram com ele não mereceram ele; outras vezes, ele que não mereceu tão boas pessoas que estiveram ao seu lado. Nos últimos tempos a felicidade não tem lhe encontrado. Por isso este desapego. Não que ele não queira se envolver com alguém. Todas estas pessoas foram importantes para o crescimento moral, espiritual e afetivo dele. Mas o Pedro cansou de insistir nos erros. A próxima pessoa na vida dele será alguém que permanecerá por muito tempo. Talvez aí esteja o cuidado extremo que ele vem tomando.
Eu conheço muito bem este rapaz; todos os dias converso com ele no espelho do banheiro. Ele quer viver, quer viajar (mesmo dizendo que é tão provinciano que não sai de Uruguaiana por nada), quer levar alegria a todos que o cercam, quer continuar jovem, quer lecionar por toda a vida (pois é assim que ele se sente bem), quer amar e se sentir amado. Mas acima de tudo: ele quer ser feliz.
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sábado, 22 de setembro de 2012

O VELÓRIO DA MÚSICA BRASILEIRA


A igreja está lotada. Os bancos completamente ocupados e os que chegam aglomeram-se, em pé, na porta da entrada. Na frente, estacionam Land Rovers, Dodges, Camaros, Saveiros e até Fiorinos. O trágico evento reuniu a todos neste velório.
Nos bancos da frente roqueiros das décadas de 1980 e 1990 abraçam-se e choram copiosamente. Integrantes das bandas pop parecem não acreditar no infortúnio ocorrido e, atônitos, apenas se entreolham. Deslocados, num canto, rapazes coloridos arrumam o cabelo, buscando chamar a atenção, sendo que somente suas roupas já servem pra fazê-los se destacar na multidão. Pagodeiros batucam com os dedos na madeira dos bancos, apreensivos. Rappers – em liberdade condicional – ensaiam alguns beach box, com a boca. Funkeiros entram abraçados com mulheres cavalonas e se benzem com whisky e energético. Rompendo o protocolo, pseudo-cowboys permanecem de chapéu de vaqueiro dentro do recinto, enquanto lustram as desproporcionais fivelas de seus cintos. Um destes sertanejos, mais exaltado, fazia sinal para uma jovem cantora de MPB, pedindo que ela, mesmo dentro da missa, fosse ao banheiro para eles se beijarem.
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No púlpito ao lado do altar, Valesca Popozuda, em trajes microscópicos, contrastando com seu macroscópico corpanzil, segura o microfone, lascivamente, quase que lambendo-o, e dá início ao cerimonial litúrgico.
“– Boa noite. O amor pela música (pelo menos aquilo que um dia ela foi) nos reuniu.
Em homenagem as almas do purgatório: Cassia Eller, 11 anos de falecimento. Renato Russo, 16 anos de falecimento. Mamonas Assassinas, 16 anos de falecimento. Tom Jobim, 18 anos de falecimento. Raul Seixas, 23 anos de falecimento. Em especial, à alma daquela que hoje nos deixa. Todas estas intenções ficarão sobre a mesa do altar. Em pé, todos, aclamemos o santo padre, batendo palmas e as mulheres dizendo:  “Agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”.

Saudado com gritos e palmas, Padre MC Catra conclama:
“– Em nome do Créu, do tchu, do lelelê e do Baraberê, Amém.
Irmãos e irmãs, pagodeiros, funkeiros, sertanejos universitários e afins, sejam todos benvindos à esta casa musical.
Vai começar a putaria. Podem sentar; quem quiser pode quicar e rebolar.”
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“– Deus é bondoso. 'Ele nos deu o sol, nos deu o mar, pra ganhar seu coração'. E a Casa de Deus é uma humilde residência; é a morada de felicidade e alegria; é a casa de louvor e de adoração; Ele nos chama para rezar e amar. Por isso, em pé, cantemos o hino número 69 do livro de cânticos”. Discursa o irmão, e beato, Latino.
“Hoje é festa lá no meu apê,
Pode aparecer
Vai rolar bundalelê
Hoje é festa lá no meu apê,
Tem birita até amanhacer”
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Solene, o padre inicia o sermão:
“ – Louvada seja a rima com ‘inho’, que nos reuniu nesse cantinho, a fim de que se possa ficar juntinho, compartilhando deste carinho e vivendo sempre desse jeitinho, devagar, devagarinho, conforme profetizou, assim, o apóstolo Martinho.
Na verdade, vos digo, que todo aquele que canta, mesmo que em forma monossilábica, aos gritos de ‘ai, ai, ai, ai, ai, ai’ ou ‘oi, oi, oi’, louva ao Senhor. E mesmo que não tenha nenhuma concordância musical, enaltece ao Espírito Santo, extrapolando a licença poética como ‘a lua iluminando o sol’ e filosofando, como na passagem do livro de Avassaladores, onde citam que: ‘traição é traição, romance é romance, amor é amor e o lance é o lance’.
Enquanto realizamos a celebração do ofertório – pois temos que pagar ECAD por todas estas citações musicais aqui feitas – cantemos a uma só voz o mundialmente famoso hino, número 12, da folhinha de cânticos”:
“Nossa, nossa
Assim você me mata;
Ai se eu te pego; ai, ai se eu te pego.
Delicia, delicia,
Assim você me mata
Ai se eu te pego; ai, ai se eu te pego.”
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Novamente o Sacerdote Catra, com sua voz rouca, dá prosseguimento à liturgia:
“– Irmãos; na sequência do pente, em verdade vos digo que todo aquele que canta seus males espanta, mas detona com a garganta. E hoje estamos aqui reunidos para nos despedir desta que tão jovem partiu para outro plano astral e deixou entre nós o silêncio de uma nota musical não terminada. Ela que nasceu sob as influências das cortes europeias, mas que cresceu nas senzalas, nos terreiros e nas favelas. Ganhou o mundo com sua batucada contagiante, não fraquejou frente às influências norte-americanas, firmou-se entre as grandes com sua melódica bossa e permaneceu por tantos anos conhecida como MPB, mas que morre ainda jovem e deixará saudade em nossos corações. Que Deus receba em sua morada a Música Brasileira; pois ela faleceu sufocada pelos modismos rítmicos que hoje proliferam-se pelas rádios, festas, shows, redes sociais e todos os demais meios de comunicação como uma praga de gafanhotos, igual aquela que Moisés enviou aos egípcios.
Em respeito à sua partida precoce, façamos um minuto de silêncio”.

Eis que nesse momento, desrespeitando o silêncio fúnebre, um rapaz pergunta, em tom relativamente alto, para a moça ao lado:
“– Vamos embora daqui? Por que o jeito é dar uma fugidinha com você”.

Nem após sua morte a Música Brasileira parece ter encontrado descanso e respeito.
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Na saída da igreja carros de som tocavam toscas paródias políticas. É ano de eleição.
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