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domingo, 18 de novembro de 2012

CUIDADO COM O PROGRAMA "PAIXÃO.EXE"


Trocando de janelas no seu mundinho virtual, transitando entre uma rede social e outra, você conheceu aquela pessoa que parece ser incrível.

Sem conhecê-lo(a), você lhe adiciona à sua lista de amigos, achando que será um programa maravilhoso e o instala em sua vida.
Com o passar do tempo, entre “curtidas”, “compartilhadas”, “comentários” e “cutucadas” surgem as primeiras conversas e aquela pessoa - que parecia ser apenas um aplicativo - já está ocupando muito espaço no seu HD emocional.
O programa instalado é fantástico. Seu sorriso é intenso, seu olhar é cativante, sua conversa é envolvente; mas de repente seu HD já começa a dar sinais de lentidão.
Alguns outros programas (amigos.ppt, trabalho.pdf e família.doc) deixam de funcionar corretamente e nem damos atenção para os avisos de sistema perguntando se queremos enviar relatório para tentar melhorar o desempenho do computador. Trocam-se números de celular, e se forem da mesma operadora, com torpedos ilimitados, o processador de nosso cérebro então já não faz mais cópias de segurança, não realiza mais operações lógicas simples e reinicia involuntariamente todo nosso sistema operacional sem pedir autorização.
Depois de alguns encontros o coller já não dá mais conta do superaquecimento sentimental de seu CPU.
Você não fez backup desde a sua última formatação amorosa. Seus arquivos emocionais, que já estavam danificados, nem na lixeira estão mais. Aflito, tenta fazer uma varredura usando um antivírus potente, mas aquele programinha adoravelmente fatal já pulou seu firewall da razão. Ironicamente, o sistema de segurança ainda lhe diz: “As definições de vírus foram atualizadas!”

Desesperado, chama algum “amigo” técnico em informática e conta tudo o que está acontecendo. Experiente, ele lhe aconselha a formatar tudo e limpar seu PC, instalando agora programas potentes como, festas.avi e bebedeiras.exe. Ao ligar de novo você percebe que o programinha ainda está ali, instalado, com arquivos ocultos.
Aquilo que parecia ser apenas uma distração inofensiva, um passatempo, um aplicativo a mais instalado (com um ícone bonito em seu desktop do dia-a-dia), tornou-se um Cavalo de Tróia poderoso, destruidor, avassalador e sem recuperação. Impregnado na placa-mãe do coração, corrompendo a memória ram emocional e o hardware racional.

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Não há mais o que fazer; você está infectado por um vírus letal e a culpa é toda sua. Pois quando você quis instalar este software, clicou em “eu concordo” sem ter lido os termos de uso do programa.
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domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre o Pedro

Muitas vezes criei estórias, inventei personagens, usei pseudônimos e deixei mensagens subliminares em muitos dos meus textos, explicando o que se passava comigo, sem que soubessem que os conselhos e as mensagens eram para mim mesmo. Esta foi a forma de “auto-ajuda” que encontrei para me medicar e, ainda, dosar a vida daqueles que leem O Provinciano. Mesmo assim muitas perguntas são feitas sobre o que realmente se passa comigo. Parece que me tornei popular; e esta pseudo-popularidade trouxe à tona o interesse das pessoas sobre a vida do Pedro. E eu vou lhes contar:
Existem dois Pedros. Um, o profissional bem-humorado, extrovertido e sempre disposto a ajudar qualquer um que lhe pedir auxílio. Pedro que passa as noites neste seu escritório montando aulas, fazendo slides, lendo livros e – literalmente – vivendo história, para fazer de uma aula seu playground; pois se existe um lugar onde realmente ele é feliz é dentro de uma sala de aula. O outro Pedro é simples, extremamente simples; sem graça como televisão preto & branco numa tarde de chuva; tão fechado que evita novas amizades e novos amores para não decepcionar as pessoas que esperam deste Pedro o que o Pedro profissional é.
Pedro machista; mas apenas da boca pra fora. Pois nenhum homem pode ser machista sendo que todos somos frutos de uma mulher; e o que seria da humanidade sem o colo feminino para nos carregar, uma mão para nos conduzir e um carinho para nos dar forças para viver? Usando esta “psicologia inversa” o machista ironiza as mulheres apenas para provar o verdadeiro valor que elas tem, mesmo quando elas parecem ser inferiorizadas.
Este Pedro que reclama da idade mesmo ainda muito jovem é porque ele não aceita o envelhecimento; quer seguir o mesmo garoto de 15 anos atrás. Quer pescar, reunir os amigos sempre que possível para uma carne assada. Quer estar em festas, dançar e se divertir. Quer jogar futebol uma tarde inteira com os amigos; pois naquela época não tinha problemas pra resolver nem o relógio pra cuidar devido a algum compromisso. Mas hoje percebe que isso é impossível; as pernas, o coração e a razão não acompanham mais o impulso jovem que felizmente insiste em ficar.
Solteiro? Insensível? Frio? Inconstante? Nos últimos onze anos houve um cara que por vezes esteve casado, por vezes noivo, outras vezes namorando. Em algumas destas vezes as pessoas que estiveram com ele não mereceram ele; outras vezes, ele que não mereceu tão boas pessoas que estiveram ao seu lado. Nos últimos tempos a felicidade não tem lhe encontrado. Por isso este desapego. Não que ele não queira se envolver com alguém. Todas estas pessoas foram importantes para o crescimento moral, espiritual e afetivo dele. Mas o Pedro cansou de insistir nos erros. A próxima pessoa na vida dele será alguém que permanecerá por muito tempo. Talvez aí esteja o cuidado extremo que ele vem tomando.
Eu conheço muito bem este rapaz; todos os dias converso com ele no espelho do banheiro. Ele quer viver, quer viajar (mesmo dizendo que é tão provinciano que não sai de Uruguaiana por nada), quer levar alegria a todos que o cercam, quer continuar jovem, quer lecionar por toda a vida (pois é assim que ele se sente bem), quer amar e se sentir amado. Mas acima de tudo: ele quer ser feliz.
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sábado, 22 de setembro de 2012

O VELÓRIO DA MÚSICA BRASILEIRA


A igreja está lotada. Os bancos completamente ocupados e os que chegam aglomeram-se, em pé, na porta da entrada. Na frente, estacionam Land Rovers, Dodges, Camaros, Saveiros e até Fiorinos. O trágico evento reuniu a todos neste velório.
Nos bancos da frente roqueiros das décadas de 1980 e 1990 abraçam-se e choram copiosamente. Integrantes das bandas pop parecem não acreditar no infortúnio ocorrido e, atônitos, apenas se entreolham. Deslocados, num canto, rapazes coloridos arrumam o cabelo, buscando chamar a atenção, sendo que somente suas roupas já servem pra fazê-los se destacar na multidão. Pagodeiros batucam com os dedos na madeira dos bancos, apreensivos. Rappers – em liberdade condicional – ensaiam alguns beach box, com a boca. Funkeiros entram abraçados com mulheres cavalonas e se benzem com whisky e energético. Rompendo o protocolo, pseudo-cowboys permanecem de chapéu de vaqueiro dentro do recinto, enquanto lustram as desproporcionais fivelas de seus cintos. Um destes sertanejos, mais exaltado, fazia sinal para uma jovem cantora de MPB, pedindo que ela, mesmo dentro da missa, fosse ao banheiro para eles se beijarem.
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No púlpito ao lado do altar, Valesca Popozuda, em trajes microscópicos, contrastando com seu macroscópico corpanzil, segura o microfone, lascivamente, quase que lambendo-o, e dá início ao cerimonial litúrgico.
“– Boa noite. O amor pela música (pelo menos aquilo que um dia ela foi) nos reuniu.
Em homenagem as almas do purgatório: Cassia Eller, 11 anos de falecimento. Renato Russo, 16 anos de falecimento. Mamonas Assassinas, 16 anos de falecimento. Tom Jobim, 18 anos de falecimento. Raul Seixas, 23 anos de falecimento. Em especial, à alma daquela que hoje nos deixa. Todas estas intenções ficarão sobre a mesa do altar. Em pé, todos, aclamemos o santo padre, batendo palmas e as mulheres dizendo:  “Agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”.

Saudado com gritos e palmas, Padre MC Catra conclama:
“– Em nome do Créu, do tchu, do lelelê e do Baraberê, Amém.
Irmãos e irmãs, pagodeiros, funkeiros, sertanejos universitários e afins, sejam todos benvindos à esta casa musical.
Vai começar a putaria. Podem sentar; quem quiser pode quicar e rebolar.”
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“– Deus é bondoso. 'Ele nos deu o sol, nos deu o mar, pra ganhar seu coração'. E a Casa de Deus é uma humilde residência; é a morada de felicidade e alegria; é a casa de louvor e de adoração; Ele nos chama para rezar e amar. Por isso, em pé, cantemos o hino número 69 do livro de cânticos”. Discursa o irmão, e beato, Latino.
“Hoje é festa lá no meu apê,
Pode aparecer
Vai rolar bundalelê
Hoje é festa lá no meu apê,
Tem birita até amanhacer”
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Solene, o padre inicia o sermão:
“ – Louvada seja a rima com ‘inho’, que nos reuniu nesse cantinho, a fim de que se possa ficar juntinho, compartilhando deste carinho e vivendo sempre desse jeitinho, devagar, devagarinho, conforme profetizou, assim, o apóstolo Martinho.
Na verdade, vos digo, que todo aquele que canta, mesmo que em forma monossilábica, aos gritos de ‘ai, ai, ai, ai, ai, ai’ ou ‘oi, oi, oi’, louva ao Senhor. E mesmo que não tenha nenhuma concordância musical, enaltece ao Espírito Santo, extrapolando a licença poética como ‘a lua iluminando o sol’ e filosofando, como na passagem do livro de Avassaladores, onde citam que: ‘traição é traição, romance é romance, amor é amor e o lance é o lance’.
Enquanto realizamos a celebração do ofertório – pois temos que pagar ECAD por todas estas citações musicais aqui feitas – cantemos a uma só voz o mundialmente famoso hino, número 12, da folhinha de cânticos”:
“Nossa, nossa
Assim você me mata;
Ai se eu te pego; ai, ai se eu te pego.
Delicia, delicia,
Assim você me mata
Ai se eu te pego; ai, ai se eu te pego.”
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Novamente o Sacerdote Catra, com sua voz rouca, dá prosseguimento à liturgia:
“– Irmãos; na sequência do pente, em verdade vos digo que todo aquele que canta seus males espanta, mas detona com a garganta. E hoje estamos aqui reunidos para nos despedir desta que tão jovem partiu para outro plano astral e deixou entre nós o silêncio de uma nota musical não terminada. Ela que nasceu sob as influências das cortes europeias, mas que cresceu nas senzalas, nos terreiros e nas favelas. Ganhou o mundo com sua batucada contagiante, não fraquejou frente às influências norte-americanas, firmou-se entre as grandes com sua melódica bossa e permaneceu por tantos anos conhecida como MPB, mas que morre ainda jovem e deixará saudade em nossos corações. Que Deus receba em sua morada a Música Brasileira; pois ela faleceu sufocada pelos modismos rítmicos que hoje proliferam-se pelas rádios, festas, shows, redes sociais e todos os demais meios de comunicação como uma praga de gafanhotos, igual aquela que Moisés enviou aos egípcios.
Em respeito à sua partida precoce, façamos um minuto de silêncio”.

Eis que nesse momento, desrespeitando o silêncio fúnebre, um rapaz pergunta, em tom relativamente alto, para a moça ao lado:
“– Vamos embora daqui? Por que o jeito é dar uma fugidinha com você”.

Nem após sua morte a Música Brasileira parece ter encontrado descanso e respeito.
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Na saída da igreja carros de som tocavam toscas paródias políticas. É ano de eleição.
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domingo, 2 de setembro de 2012

ESTUDE PARA O VESTIBULAR TIRANDO PROVEITO DA PALHAÇADA ELEITORAL LOCAL


Engana-se o eleitor que acha que hoje sofre com os desesperados apelos por voto que os candidatos fazem das mais diversas formas. O problema é bem mais antigo do que parece.
Prometer absurdos ao eleitor, pedir de forma ridicularizada por voto, indicar candidatos e desmoralizar a nossa já desmoralizada democracia, nunca foi uma opção, mas uma preferência entre os candidatos de hoje, ontem e sempre.
Durante este período eleitoral municipal, rimos de candidatos, reclamamos da poluição sonora e visual que toma as ruas (e mais recentemente, a internet e nossas próprias redes sociais) e assistimos perplexos as tentativas de manutenção do poder, onde governos indicam – quase de forma coronelista – em quem o eleitor tem a obrigação de votar.
Porém até desta escarnia podemos tirar proveito. Pois se a história nos serve como lição para que não repitamos erros do passado, decidi trazer quatro questões de vestibular – mostrando “o ontem” – para que vocês, meus caros alunos, possam resolver tais questões e, assim, estudar para o vestibular, identificando como a política é suja e, torcendo (eu) para que destas lições todos possam aprender com a história e não repetir estes erros nas eleições que se aproximam.

NÃO CAIA EM PROMESSAS DE CAMPANHA (Políticos prometem o impossível para conquistar o seu voto):
01 - (UNEB-BA) “Cinqüenta anos de progressão em cinco de governo.” Foi o slogan que marcou o governo do único presidente brasileiro eleito por voto popular, após a Constituição de 1946 e que chegou efetivamente a concluir mandato.
Trata-se de:
A) Getulio Vargas, cuja proposta profundamente nacionalista sempre agradou aos chamados setores da classe média.
B) Café Filho, que sempre soube contar com grande respaldo militar.
C) Nereu Ramos, um estadista, marcado por posturas profundamente pacifistas.
D) Carlos Luz, o mais destemido elemento civil que já ocupou interinamente um cargo como o da presidência do país.
E) Juscelino Kubitschek, que buscou a expansão industrial e a interiorização do desenvolvimento.

NÃO RECLAME DOS JINGLES IRRITANTES QUE CAUSAM POLUIÇÃO SONORA PELA CIDADE (Já houveram músicas muito piores):
02 - (UERJ) Varre, varre, varre, varre, vassourinha. Varre, varre a bandalheira, Que o povo já está cansado De sofrer desta maneira. Jânio Quadros é a esperança deste povo abandonad
                                       (Nosso Século. São Paulo: Abril Cultural, 1980.)
Esse "jingle" acompanhou o candidato Jânio Quadros durante a sua campanha à presidência da República, em 1960. A letra sintetiza a seguinte política de resolução dos problemas da época:
a) a austeridade do governo e o controle dos gastos públicos conteriam a inflação e a corrupção oficial
b) a disputa de mercados externos e a ideologia nacionalista aumentariam o superávit comercial e a geração de renda
c) o atendimento à economia popular e à produção de alimentos baixariam o custo de vida e os gastos do governo
d) a defesa dos interesses nacionais e a adoção de uma política externa independente gerariam emprego e novas possibilidades econômicas

NÃO SE IMPRESSIONE COM “SANTINHOS” (Alguns candidatos já chegaram ao exagero da heresia, apelando pelo voto do eleitor):
03 - (Ufpel) ORAÇÃO GETULISTA
Creio em Getúlio Vargas, todo poderoso, criador das leis trabalhistas. Creio no Brasil e no seu filho, nosso patrono, o qual foi concebido pela revolução de 30. (...) Creio em seu retorno ao palácio do Catete, na comunhão dos pensamentos, na sucessão Presidencial. Amém.
NOTA – Para o bem da nação tire cópias desta oração e envie a seus amigos patriotas.
CARDOSO, Oldimar
O panfleto, ao se referir ao retorno de Vargas ao Palácio do Catete, demonstra ter sido propaganda da campanha eleitoral de:
a) 1930, utilizada pela Aliança Liberal.
b) 1934, após o presidente ter sido deposto pela Revolução Constitucionalista de 1932.
c) 1950, quando o gaúcho foi eleito com um projeto nacionalista.
d) 1937, quando o PTB seguiu as determinações da Constituição “polaca”.
e) 1945, período que instaurou a democratização do país.

PRINCIPALMENTE, NÃO SE IMPRESSIONE COM A IMPOSIÇÃO DE VOTAR NO CANDIDATO INDICADO PELO GOVERNO (Para manter-se no poder vale tudo; inclusive sugerir quem será seu sucessor):
04 - (UFRGS) Nas eleições presidenciais de dezembro de 1945, podiam-se ler cartazes com os seguintes dizeres:
“Brasileiros!
Ele disse:
Para Presidente: Eurico Dutra.”

Na propaganda acima, o pronome “ELE” refere-se a:
A) Juscelino Kubitschek
B) Getúlio Vargas
C) Café Filho
D) João Goulart
E) Jânio Quadros

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A resposta destas questões está no final do texto.
Já a resposta para o seu voto errado estará nos quatro (ou oito) anos de arrependimento.
BONS ESTUDOS!


Respostas: 01-E, 02-A, 03-C, 04-B

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

ENTRE CARMINHA E RITA EXISTE OUTRA PERSONAGEM


Parece que o alienado sou eu!
Até hoje eu achava ser a única pessoa no Brasil que não está acompanhando a novela das oito, que passa as nove.
Minha mãe e meu filho chegam contar os minutos pra novela começar. Quando chego em casa, estão os dois sentados na sala e o jantar esfriando na mesa. Recentemente reativamos a confraria de amigos e durante a novela não consegui conversar com nenhum deles porque todos se prostraram frente à TV e deles  não consegui ter atenção. No facebook toda hora postam imagens dos personagens, falas que não entendo e comentários sobre o capitulo anterior; mas na hora da novela até as redes sociais parecem ficar desertas.

Não sei o nome desta novela; não sei quem é o diretor, não sei qual o enredo, nem quem são os atores. Apenas fiquei sabendo que retrata a classe média emergente brasileira, que se baseia num desejo de ódio e vingança e que é balizada por duas vilãs: Carminha e Rita. Tive que pesquisar este assunto pra não parecer um E.T. nas conversas informais destas últimas semanas.
A novela faz o Brasil parar.
Porém, outros personagens ocultos, conseguem com isso permanecerem mais ocultos ainda, e longe do centro das atenções. E o Brasil padece em vários outros setores, na vida real.
Caminhoneiros, pararam, trancaram rodovias, queimam pneus e protestam contra o governo. Manifestações desse setor prejudicam a economia nacional e podem levar o problema até mesmo à mesa do consumidor, que desvairado, deixa seu jantar esfriar pra assistir novela.
As universidades federais também pararam (e a culpa não é da Rita!). Em greve desde maio, professores e funcionários querem reajustes dignos e condições de trabalho da qual são merecedores. Alunos perdem o semestre, dinheiro, meses de estudo e de vida. Sem solução aparente – e iminente – faculdades ameaçam não prestar vestibular, fazendo o sonho de muitos se esvair, como nas “cenas dos próximos capítulos”. Num ato de protesto agendado aqui em Uruguaiana, centenas aderiram no facebook, mas pouco mais de vinte pessoas compareceram. E o assunto para se discutir devido à ausência de manifestantes no evento? É... a Carminha!
Na semana onde haverá o Julgamento do Século (curiosamente e misteriosamente marcado em data esportiva: as Olimpíadas), Delúbio Soares, José Genoíno, Marcos Valério, José Dirceu e demais componentes do maior escândalo de corrupção da história do Brasil vão à júri, sete anos depois da chamada Crise do Mensalão (2005), que abalou o governo Lula. Mais estranho ainda é perceber que o romance televisivo das 21 horas teve picos de audiência - jamais alcançados antes  -na semana que antecede o processo. Se naquela época as CPIs e os julgamentos terminavam em pizza, hoje elas são ritmadas ao som de:   oi oi oi   .

Mas o Brasil quer mesmo é saber de trama de novela; quer se emocionar com arroubos vingativos e chorar com dramas familiares; o brasileiro quer se identificar com os personagens, por isso uma novela que retrata a classe emergente chama tanto à atenção do público alienadamente passivo.
“- Não importa o que está acontecendo lá fora!” Diz a velha senhora aposentada, sentada na poltrona assistindo o fim jornal, que ela nem prestou atenção, ansiosa para o início de sua novela, sem se dar conta que o “lá fora” foi ela mesma que elegeu.
“- Preciso postar no face que hoje a Carminha descobre quem realmente é a Rita.” Pensa aquela moça que, em greve, não tem nada mais pra fazer senão assistir a dramaturgia das nove.
“- Não me prejudicando é conta. Deixa que se matem lá em Brasília.” Fala o senhor trabalhador; que depois de um dia de serviço, exausto, só pensa em sentar e assistir a novelinha e depois ir dormir. Sem saber que de seu suor saiu o dinheiro para o pagamento de impostos e desvios de dinheiro público.
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Enquanto isso, entre a Carminha e a Rita, existe uma outra personagem que permanece sutilmente oculta a toda trama, tramando contra todos nós. A grande vilã da novela...
Ela desfila na “Avenida Brasília”
Dilma!



sábado, 28 de julho de 2012

UM CONVITE À HISTÓRIA


Se existe uma maneira de se "sentir a história” é quando apreciamos uma xícara de café. Pois, para que esta bebida negra seja servida em sua mesa foi necessário que muitos povos, com suas mais diversas culturas, ao longo de séculos, permitissem que agora você deguste a história.
Na África, por volta do século VI, que um pastor de cabras percebeu que seus animais excitavam-se ao consumir umas frutas vermelhas que nasciam de flores brancas. Teria então o pastor provado da fruta e assim espalhado o hábito pela região. Esta é a chamada “Lenda de Kaldi”.
Inicialmente seu consumo era através de fermentação, tornando a bebida alcóolica; também eram utilizadas suas folhas, numa espécie de infusão semelhante ao chá. Apenas há cerca de 1.000 anos – após o fruto ter atravessado o Mar Vermelho, pela Península Arábica – que se obteve o caldo preto, como hoje é conhecido (resultado de sua torrefação e moagem), e assim ganhou o Oriente Médio, sendo aos poucos incorporado até no hábito noturno de monges que, em suas vigílias e rezas, bebiam o café como forma de substituir o consumo de bebida alcóolica (condenada pelo Alcorão). Tão importante se tornou o café na cultura árabe, que mulheres podiam pedir o divórcio, caso o cônjuge não provesse a casa com determinada quantia do produto.
Após o fim da Idade Média, e o renascimento comercial que religou Ocidente e Oriente, o café ganhou as mesas europeias, entrando através de Veneza (1615), sendo considerado produto de luxo. Ainda dominados pela Igreja Católica, que arbitrava severamente o mundo ocidental, a poção negra chegou a ser acusada de “bebida do diabo” e considerada herética. Foi necessário que o Papa Clemente VIII a provasse e, aprovando, tornasse-a uma bebida cristã. O mundo europeu e colonialista, começava a consumir, e tornar habitual em sua cultura, o café, espalhado agora ao redor do mundo.
Ávidos de lucro, holandeses plantavam em ilhas no Oceano Índico.
Absoluto, o “Rei Sol” Luís XIV ordenava que cultivassem espécies em suas colônias na América Central.
Malandros, brasileiros trouxeram escondido (a mando do governo colonial) mudas da Guiana Francesa e iniciaram seu cultivo no Grão-Pará.
Prejudicados pelo comércio competitivo do açúcar e com as minas gerais esgotadas, mudas da planta foram trazidas para próximo da capital da colônia e a região fluminense deu o impulso que precisava à produção em larga escala, aproveitando o clima, o solo e a mão-de-obra escrava abundante. Ao chegar ao Brasil, em 1808, e decretar a Abertura dos Portos Às Nações Amigas, Dom João VI colocou o café – e o próprio Brasil – na vitrine do mundo.
O Vale do Paraíba enriqueceu com a produção cafeeira. Escravos, que na década de 1850 custavam 500 mil réis, na década seguinte valiam 100% mais. Aumentavam om lucros do jovem império; a região florescia junto com a flor branca que dava frutos vermelhos. O café era responsável por 56,8% de toda exportação brasileira. Mas de tanto explorar o solo carioca, este se esgotou, fazendo com que se buscassem novas áreas para o plantio: o Oeste Paulista.
A região logo enriqueceu. A floresta atlântica foi devastada naquela região para dar lugar às fazendas que nasciam. Vieram as ferrovias para ligar o polo produtor aos portos no litoral. A mão-de-obra escrava, além de encarecer o produto, não era tecnicamente preparada, atravancava o capitalismo e, por isso, imigrantes foram trazidos para dinamizar ainda mais o trabalho. Italianos deixavam suas terras buscando vida nova na América cafeeira; japoneses atravessavam o mundo em busca de emprego no Novo Mundo. Daqui do sul saía o charque para alimentar os trabalhadores dos cafezais. São Paulo se industrializava graças à semente torrada. O mundo consumia cada vez mais a bebida amarga.
Caía o Império, nascia a República e presidentes foram eleitos em função da defesa do grão (tão importante se tornara o gênero, que um período da história do Brasil leva seu nome: República do Café-com-Leite). Oligarquias se alternaram no poder; o coronelismo defendia interesses próprios. Grandes artistas, como Cândido Portinari (nascido em uma fazenda de café), ganhavam notoriedade pintando cenas da produção cafeeira. Revoluções estouravam direta ou indiretamente por causa da bebida negra. A crise de 1929 afetou toda a enorme produção do grão brasileiro; seu preço despencava no mercado internacional. Vargas, no seu golpe de 1930, virou a xícara e derrubou o café-com-leite. E mesmo assim, o café continuava sendo consumido no mundo todo. Já fazia parte enraizada da nossa cultura esta frutinha vermelha descoberta centenas de anos antes, do outro lado do mundo.
O café do mundo, agora era brasileiro; o Brasil, de muitas cores, agora era moreno como o café.
Por isso quando seguramos uma xícara dessa bebida quente, densa e amarga, temos nas mãos todos aqueles povos e homens que atravessaram continentes cultivando. Quando sentimos seu aroma, temos nas narinas a essência do tempo; e quando bebemos o café podemos, de forma sublime, sentir o gosto da história.
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Aceita, então, tomar um cafezinho?
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segunda-feira, 9 de julho de 2012

QUANDO JÁ NÃO HÁ MAIS EXPLICAÇÃO


Está na vocação do professor de história ser cético. Contrariamos a religião – e suas historinhas fabulosas – e nos baseamos apenas na ciência e suas teorias. Ironizamos Adão e Eva e o Paraíso, enquanto discutimos australopitecos vagando pelas savanas africanas há milhões de anos.
Assim nos foi ensinado na faculdade, e nos orgulhamos de ter Darwin como “o homem que matou Deus!”.
A cada descoberta, nestes últimos cem anos extremamente revolucionários para ciência, o homem conseguiu se distanciar da fé e se aproximar daquilo que chamamos de razão. Assim, constatamos cientificamente que antes de tudo não havia nada, e que desse nada teria resultado de uma grande explosão que deu origem a tudo, surgindo o universo. Desta forma comprovou-se, através de experimentações, análises e estudos, que o homem é o resultado de um lento processo evolutivo de primatas, que por necessidade de sobrevivência, ao passar de milhões de anos foram adaptando-se ao meio ambiente, chegando a tornar-se hoje o dono de toda a natureza que antes era sua dona.
Solucionamos dúvidas com a ciência. Retiramos enormes pontos de interrogação da humanidade com base no estudo e na razão. Tornamos verossímil – através de teorias – aquilo que antes era inexplicável.
Mas como explicar tantas teorias quando não há razão para entender? Nem toda a ciência do mundo consegue suplantar a inocente ignorância.
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Foi assim que passei por mais um dos meus grandes constrangimentos em sala de aula, anos atrás, quando uma jovem aluna da quinta série parou uma explicação minha sobre pré-história:
- Teorias indicam que nós humanos viemos de um ancestral em comum do macaco, há milhões de anos na África. Dizia eu aos alunos.
- E de onde vieram os macacos, professor? Perguntou a menina.
- Certamente de animais que teriam sobrevivido ao asteroide que extinguiu com quase toda vida na terra, inclusive os dinossauros. Repliquei, tentando assim desviar a atenção da jovem pra outro assunto (dinossauros, quem sabe). Em vão.
- Então de onde vieram os dinossauros?
- De repteis que evoluíram de anfíbios!
- E os anfíbios vieram de onde?
Nesse momento em já sentia uma vontade de mandar a menininha pra coordenação por princípio de tumulto.
- Dos peixes. Respondi friamente; achando que terminaria ali o interrogatório. Ledo engano.
- E os peixes?
- De seres que viviam nos oceanos.
- E estes “seres”, professor? Vieram da onde?
Minha vontade era de dizer que vieram da casa da vovozinha!
- De micro-organismos, que surgiram a partir de um arranjo de moléculas que teriam criado vida supostamente através de um raio que caiu.
Pronto! Agora eu achava ter dado um nó no cérebro da criança. Mas ela não desistia...
- O que são micro-organismos? O que são moléculas? Como é que o raio acertou neles? Aaaahhhhh... E de onde vieram os micro-organismos e as moléculas então?
- ...
Foi quando o sinal bateu para o recreio e todos os alunos saíram correndo para o pátio; inclusive aquela terrível infanto-inquisidora, de trancinhas e aparelho nos dentes, para meu alívio; pois eu estava na iminência de ter que rasgar meu diploma frente àquele pequeno questionário-vivo.
Pelo menos aquela curiosa menina fez com que eu também começasse a me indagar até onde a razão consegue explicar os fatos; e percebi que quando a ciência não consegue mais explicar, aí então, recorremos a Deus. Pois somente um ato divino faria um raio despertar uma matéria bruta.
Mesmo assim, durante estes anos, continuei me perguntando sobre a origem do universo e a resposta final que eu nunca dei àquela mocinha.

Quando surgiu a vida, de fato? O que havia antes do Big Bang? Como, do nada, surgiu isso tudo?
Tantas perguntas sem explicação, cientistas se confrontando em teorias que explicam mais teorias; e quando parecia já não haver mais explicação: Bang!
“Cientistas descobrem o Bóson de Higgs”.
O Santo Graal da Física. Uma partícula capaz de dotar de massa outras partículas. A origem de tudo.
Que ironia!
Em tempos onde fé e religiosidade estavam sendo deixadas em segundo plano, na busca por explicações racionais, veio justamente ela - a ciência -, a inimiga da fé, que provar que Deus existe.
Eis o dom da Criação. O Criador – Deus – explicado pela criatura, através da física. Dotando de matéria e vida o universo. Presente em cada elemento, em cada ser, em cada partícula.
“A Partícula de Deus”.
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E aquela menininha?
Certamente vai querer ser cientista quando crescer.
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